Mais Justiça, Menos Desigualdades

Blog



A desigualdade de gênero, suas injustiças e desafios

24/08/2021 Tempo de leitura: 8 minutos
 

A desigualdade de gênero está presente em todos os espaços, sendo reforçada pelo machismo e outras heranças do patriarcado. Há quem diga que as diferenças evidenciadas entre homens, mulheres e pessoas não-binárias vêm diminuindo ao longo do tempo, mas o que realmente impulsiona essa lacuna entre os gêneros?

Embora, pouco a pouco, as mulheres estejam conquistando direitos por muito tempo negados a elas, para uma plena participação política e social ainda temos um longo caminho em busca de mais equidade. O Fórum Econômico Mundial estima que demandará mais de 257 anos antes que a verdadeira igualdade de gênero se torne uma realidade em nossa sociedade.

Não há uma perspectiva linear para a progressão das questões de gênero. Segundo o Relatório de Desigualdade Mundial, a globalização acentua a desigualdade econômica e, consequentemente, essa dicotomia entre homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros.

Neste artigo, discutimos as principais causas da desigualdade de gêneros, quais as consequências dessas diferenças e os desafios que devem ser transpostos para a promoção da equidade. Vamos lá?

Quais são as principais causas da desigualdade de gêneros?

Veja a seguir alguns motivos que potencializam a desigualdade de gêneros em nossa sociedade.

Acesso desigual à educação

Em todo o mundo, as mulheres ainda têm menos acesso à educação do que os homens, embora em alguns países a continuidade no processo de ensino seja mais evidente entre as mulheres.

Isso justifica um nível mais alto de instrução para o gênero feminino no Brasil — segundo dados publicados pelo IBGE no estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, as mulheres são 4,3% mais instruídas em relação aos homens, mas isso não impede a evidente desigualdade salarial.

Em todo o mundo, 25% das mulheres jovens entre 15 e 24 anos não terminam a escola primária. Esse grupo representa 58% das pessoas que não concluem o ensino fundamental e quase 70% das pessoas analfabetas.

O acesso igualitário à educação é premissa básica para a mudança desse contexto. Um ensino de qualidade aumenta as chances de boas oportunidades de trabalho e, principalmente, da percepção social de que o ser feminino pode ocupar qualquer posição na sociedade.

Falta de equidade no mercado de trabalho

Como consequência de vários aspectos históricos, estruturais e sociais, assim como a limitação das chances de aprendizagem, as mulheres também são privadas de boas oportunidades no mercado de trabalho. Isso impacta diretamente na percepção da importância da atuação feminina fora do âmbito doméstico para o alcance de uma condição social mais libertária.

Soma-se a isso a maternidade, que restringe a atuação feminina no mercado de trabalho até que os filhos alcancem idade escolar. Ainda, impacta o tempo dedicado ao seu próprio crescimento profissional, aspecto sobre o qual falaremos a seguir.

A segregação é outro motivo evidente para essa dicotomia. Em muitas sociedades, existe uma crença limitante de que os homens são mais bem preparados para lidar com funções que exigem habilidades tradicionalmente associadas ao masculino. São exemplos aquelas que dependem de força física.

Às mulheres também são impostas as responsabilidades primárias de trabalhos não remunerados, como serviços domésticos e de cuidados de terceiros (crianças e idosos da família). Todos esses fatores contribuem, portanto, para uma menor participação das mulheres na força de trabalho remunerada.

Como forma de minimizar essa disparidade e até aumentar a sua atuação no mercado, muitas mulheres aceitam oportunidades de emprego de tempo parcial. Isso também limita o seu poder de renda e de exigência de direitos previdenciários.

Falta de proteções legais

De acordo com uma pesquisa do Banco Mundial, mais de um bilhão de mulheres não têm proteção legal contra a violência física, sexual ou patrimonial em âmbito doméstico.

Isso impacta significativamente na capacidade feminina de conquistar espaços, seja para ter mais liberdade, seja para obter vantagens há muito negadas em contextos profissionais.

Em muitos países, ainda faltam proteções legais contra o assédio (moral ou sexual) no local de trabalho, na escola e em transportes públicos. Esses lugares tornam-se ambientes inseguros e, muitas vezes, as mulheres os desconsideram para que não sejam subjugadas. Entretanto, isso prejudica a sua liberdade de escolha ou o seu direito de ir e vir.

Falta de autonomia sobre os próprios corpos

Muitas mulheres em todo o mundo não têm autoridade sobre seus próprios corpos, acesso aos métodos contraceptivos, atendimento médico e orientação sexual adequados, principalmente depois de se tornarem mães.

O acesso às políticas de controle de natalidade são restritas, seja por falta de interesse político e adesão em função de questões culturais, ou pela falta de concordância devido às crenças religiosas.

Segundo relatório anual do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), quase metade das mulheres residentes nos 57 países em desenvolvimento não tem autonomia para decidir sobre seus direitos sexuais ou reprodutivos.

O relatório, criado com base nos dois indicadores da ONU sobre autonomia corporal das mulheres a partir do cumprimento da meta 5.6 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mostra que apenas 55% das mulheres usufruem desses direitos.

O relatório também aponta que 71% dos países oferecem infraestrutura para cuidados na maternidade. 75% asseguram legalmente acesso igualitário e completo à contracepção, 80% têm leis que apoiam a saúde sexual feminina e 56% têm leis e políticas públicas específicas para educação sexual.

A desigualdade de gênero é apontada como a principal dentre as várias razões listadas para essa situação de atendimento precário. O estudo evidencia que, quando as mulheres obtiverem o poder de decidir sobre os seus corpos e os seus futuros, a sociedade passará por muitas transformações.

Assim, será possível transpor barreiras em âmbitos sociais, econômicos e acelerar o progresso rumo à justiça e ao bem-estar social.

Falta de liberdade religiosa

Quando a liberdade religiosa é privada em uma sociedade, as mulheres integram o grupo mais prejudicado. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a imposição de ideologias extremistas e, consequentemente, a restrição à liberdade de culto, acentuam a desigualdade de gênero.

Além disso, em um estudo realizado pela Georgetown University e Brigham Young University, os pesquisadores conectaram a intolerância religiosa com a capacidade feminina de participação em questões estruturais, como a economia.

Pouca representatividade nos espaços

A representatividade é um aspecto fundamental para a mudança de paradigmas. Quando as mulheres se reconhecem em cargos políticos e outras formas de poder, elas elevam suas expectativas sobre si próprias.

Ainda, em uma democracia, fica mais fácil votar e aprovar políticas públicas de proteção e combate à misoginia e à violência contra as mulheres, ações de incentivo e formação de grupos de apoio que fomentem cada vez mais a participação feminina em todas as esferas sociais, uma vez que essas questões são comumente negligenciadas em parlamentos formados majoritariamente por homens.

Racismo

A desigualdade de gênero e o racismo estão intimamente conectados. Mulheres negras ocupam subempregos, sofrem duas vezes a discriminação, são ignoradas, têm menor poder de decisão, ganham salários menores e precisam negligenciar a atenção aos seus próprios filhos.

Essas mulheres são marcadas pela ingerência política, ocupam espaços periféricos, têm poucos ou nenhum direito previdenciário, sofrem pela violência das cidades e têm o corpo marcado por lutas sem fim.

O combate ao racismo também favorece a igualdade entre os gêneros, por isso é preciso criar ferramentas para a conscientização de toda a sociedade.

Mentalidade social

A percepção social impacta significativamente na igualdade de gênero. O modo como as pessoas interpretam as diferenças entre homens e mulheres determinam as relações no trabalho, no sistema jurídico e até na política.

Crenças sobre a inferioridade do gênero feminino são profundas. Embora muitas conquistas ao longo dos anos tenham desconstruído essa mentalidade patriarcal, discussões relevantes que poderiam agilizar a conquista de outros direitos essenciais ainda são ignoradas.

Quais desafios devem ser transpostos para a promoção da equidade entre os gêneros?

Veja a seguir, quais mudanças podem ser operadas e os motivos pelos quais a equidade de direitos é tão importante para a nossa evolução como sociedade.

Divida as tarefas domésticas e cuidados com os filhos

As tarefas domésticas e os cuidados com as crianças e idosos são responsabilidades de todos os adultos. Entretanto, essas funções não remuneradas ainda são realizadas principalmente por mulheres em grande parte do mundo.

Segundo a pesquisa “Outras formas de trabalho” realizada em 2019 pelo IBGE, as mulheres gastam 21,4 horas semanais dedicando-se às atividades domésticas e de cuidados com terceiros. Os homens, por sua vez, passam apenas 11 horas do seu tempo realizando esse tipo de atividade.

A sobrecarga dos afazeres domésticos pode aumentar as chances de adoecimento mental das mulheres, além de interferir na sua produtividade no trabalho, e, consequentemente, no seu ganho salarial.

Combata a violência doméstica

Redes de apoio ajudam a criar um ambiente favorável às denúncias de abusos e violência doméstica. Não tenha medo de denunciar qualquer tipo de situação suspeita, ainda que as agressões estejam limitadas às ameaças.

A violência psicológica precede o abuso físico, e esse ciclo precisa ser interrompido antes que as consequências se tornem ainda mais sérias. Por isso, tenha tolerância zero ao assédio!

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os casos de violência contra a mulher cresceram 5,2% no Brasil em 2020. Em contrapartida, houve redução significativa de 10,9% de denúncias de lesão corporal dolosa no mesmo período.

Esses números demonstram a importância de combater os casos de abuso doméstico, principalmente no contexto da pandemia. O isolamento social impôs uma situação ainda mais crítica, uma vez que as mulheres passaram mais tempo junto aos seus agressores.

Lute por mais asilos, creches e instituições de ensino públicas

Mulheres que conseguem pagar pelos serviços de terceiros, instituições de ensino ou creches particulares conseguem abdicar de seis horas de trabalho doméstico semanal, segundo os dados apurados pelo IBGE.

Entretanto, essa é uma condição para poucas famílias. Infelizmente, boa parte dos grupos familiares precisam contar com a rede pública de ensino para garantir um tempo parcial disponível para a dedicação ao trabalho.

O que esses pais encontram são a falta de vagas em escolas de qualidade, poucas linhas de transporte público, falta de segurança no trajeto e, muitas vezes, violência nas proximidades das instituições de ensino.

O Estado deveria prover mais vagas em asilos e creches, para diminuir a demanda de cuidado cuja responsabilidade, na maioria das vezes, é transferida para as mulheres. Ainda, a adoção do ensino em período integral poderia sanar a questão das vagas parciais, que limitam a capacidade de trabalho das mulheres em meio período.

Em longo prazo, a solução traz inúmeros benefícios sociais. Pode fomentar a educação, melhorar as condições de aprendizagem de meninas e adolescentes e viabilizar a adesão aos cursos de qualificação e de conteúdos extracurriculares. Estes conteúdos são essenciais para prestar suporte a um desenvolvimento vocacional e profissional.

Participe de cursos de qualificação profissional

Cursos gratuitos de qualificação profissional na modalidade à distância são essenciais para garantir o desenvolvimento contínuo de habilidades e adequação das mulheres ao mercado de trabalho.

A característica EAD fornece flexibilidade de horários para que seja possível conciliar várias rotinas sem prejuízo dos resultados.

Exija licença maternidade/paternidade

De certa forma, a maternidade fomenta a desigualdade entre os gêneros. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 50% das mulheres são demitidas em até dois anos após o cumprimento da licença maternidade.

Mães com filhos de até seis anos, grupo que não abrange a idade escolar, ainda têm maior dificuldade de recolocação. Essa é uma realidade que atrasa o desenvolvimento profissional das mulheres, pois restringe as oportunidades de emprego, compromete a produtividade e, consequentemente, a equidade salarial.

As mães precisam de apoio nesse período crítico. Em uma situação ideal, a licença-maternidade e paternidade seriam concedidas por um mesmo período para o revezamento dos cuidados entre os genitores.

Diga não aos comentários caluniosos e vexatórios

O racismo e o preconceito podem ser disfarçados em “microagressões” disseminadas por meio de piadas e comentários ofensivos feitos sem intenção prejudicial, mas que magoam as pessoas e geram estresse.

Por isso, jamais faça comentários que ridicularizem, rebaixem ou humilhem as mulheres, ou quaisquer outros grupos historicamente marginalizados na sociedade. Além disso, não ache engraçado ou fique em silêncio ao ouvir esses comentários.

É preciso combater em todos os âmbitos a disseminação de conteúdo calunioso e vexatório, seja em grupos de conversa por aplicativos, seja no almoço de domingo. Converse com seus familiares e amigos com franqueza e diga-lhes para pararem com os insultos que só reforçam as posturas machistas.

Garanta mais multiplicidade nos espaços

A multiplicidade deve estar prevista em todos os espaços. Por isso, valorize, estimule e contrate equipes diversificadas. Um estudo do Boston Consulting Group envolvendo 1.700 empresas atestou que quanto mais diversificada é a equipe em uma empresa, melhor será o desempenho em processos que exigem inovação.

Conceda um lugar de fala às mulheres

Um dos principais obstáculos para eliminar o preconceito é o reconhecimento de que ele existe. A sociedade reproduz estereótipos de várias formas, mas é preciso desfazê-los definitivamente.

Para isso, você pode tomar ações simples. Conceda às mulheres seu lugar de privilégios, dê a elas a oportunidade de fala, preste atenção às suas suposições e saiba que ninguém está imune a fazer comentários preconceituosos ou manter atitudes tendenciosas.

Quando alguém apontar problemas em seu discurso, ouça, peça desculpas e reflita sobre isso para começar a operar em você essa mudança tão importante.

Conheça a Oxfam Brasil e veja outras ações que podem ajudar nessa trajetória em busca de mais igualdade entre os gêneros.

Categoria:

Desigualdade de gênero

Cadastre-se
Junte-se a nós para contribuir para as mudanças que queremos na sociedade brasileira.
Cadastre-se agora para receber mais informações!
Ao se cadastrar, você concorda com a política de privacidade da Oxfam Brasil


Deixe um comentário


A Oxfam Brasil utiliza cookies para melhorar a sua experiência

Ao continuar navegando na nossa página, você autoriza o uso de cookies pelo site.