Mais Justiça, Menos Desigualdades

Terceiro e último dia do Encontro Nacional Contra a Fome reúne as muitas caras da fome no Brasil

Foram realizados três painéis com representantes de movimentos sociais e organizações negras e indígenas para falar sobre os mais atingidos pela insegurança alimentar no país.

24/06/2022 Tempo de leitura: 3 minutos
 

O terceiro e último dia do Encontro Nacional Contra a Fome, realizado na sede da Ação da Cidadania, no Rio de Janeiro, reuniu organizações, movimentos e especialistas em três painéis dedicados às soluções para a fome no Brasil.

O primeiro painel, Fome e Justiça: Direitos Humanos à Alimentação, contou com a participação de Ney Strozake (grupo Prerrogativas e MST), Sílvia Sousa (OAB) e Andréa Sepúlveda (Defensoria Pública do Rio de Janeiro).

Strozake criticou o agronegócio brasileiro, por não priorizar a alimentação da população do país e reforçou a necessidade de uma reforma agrária ampla e profunda.

“O agro não é pop, o agro não é ‘tech’. O agro é fome!”, afirmou, sob aplausos centenas de pessoas que lotaram o auditório do encontro. “Se tem uma coisa que pode combater a fome pra valer no Brasil é a reforma agrária.”

Sílvia Souza incluiu o governo federal entre os responsáveis pela insegurança alimentar dos brasileiros. “Há uma política deliberada adotada pelo governo federal de ampliação da insegurança alimentar”, lembrando os dados da pesquisa da Rede Penssan que revelou o triste número de mais de 33 milhões de brasileiros em situação de fome.

As caras da fome

O segundo painel do dia, As Caras da Fome, foi dedicado às diferentes fomes que atingem o país, reunindo representantes de organizações das populações negra e indígena.

“Precisamos ter compromisso real de reafirmar sempre que este país continua dando lucros a alguns a partir da invasão de povos originários e da escravidão”, afirmou Kota Mulanji, do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos de Matriz Africana. “Enquanto não tivermos coragem de voltar às nossas origens, estaremos privilegiando aqueles que se apropriam.”

Para Ekedi Marta, as mulheres negras estão à frente do processo de alimentação. “Não é a comida pela comida, é um alimento que alimenta corpo, alma e espírito. Nós estamos trazendo velhas e novas narrativas, cozinhas e hortas comunitárias, repartir.”

“A raiz da fome no Brasil não é o grande latifúndio, mas a invasão dos brancos às terras dos povos originários, a escravidão dos povos negros”, disse o professor Pedro Acosta Leyva. “O latifúndio é resultado dessa invasão e dessa escravidão.” Segundo ele, a fome não é só biológica, é também política, cultural e “tem a ver com as eleições”.

Giovana Souza, do Instituto Social Grupo Espaço Negro, perguntou como será o futuro do país se nenhuma atitude for tomada imediatamente. “A insegurança alimentar acomete o desenvolvimento motor, cognitivo e social de nossas crianças.”

Dourado Tapeba, liderança indígena do Ceará, lembrou a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) no primeiro dia do governo Bolsonaro. “É uma afronta à democracia brasileira!”

Comida de verdade é um direito humano

No terceiro e último painel do dia, Brasil sem fome, com comida de verdade, representantes de movimentos sociais, de segurança alimentar e nutricional e movimentos de assistência social discutiram a importância da articulação rural-urbana no enfrentamento da fome.

O painel foi organizado pela Oxfam Brasil, em parceria com ActionAid e Conferência Popular por Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

“Agroecologia tem que estar presente sim no debate sobre sobre combate à fome”, afirmou Adriana do Nascimento Silva, diretora da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de Pernambuco (Fetape).

Para Ana Paula Ribeiro, coordenadora nacional das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto, “a ideia das cozinhas é alimentar mas também resgatar valores de solidariedade que ficaram para trás”.

Já Jucimeri Isolda Silveira, da Frente Nacional em Defesa do Sistema Único de Assistência Social e da Seguridade Social, lembrou que é preciso lutar pelo direito à renda básica, que já está constitucionalizado, e nunca foi implementado. “E isso não é o Auxílio Brasil que temos hoje.”

Elisabetta Recine, Conferência Popular por Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, afirmou que os princípios dos direitos humanos são fundamentais na luta contra a fome. “Todas as pessoas têm direito de estar livre da fome e ter acesso a alimentação adequada.”

Assista aos painéis da parte da manhã:

Assista ao painel da tarde:

Aqui a playlist completa com todos os painéis dos três dias do encontro:

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