EMERGÊNCIA COVID-19: sua solidariedade protege famílias

 

Antônio Junião

Conte um pouco sobre sua história. 

Sou natural de Campinas (SP) e comecei a desenhar como toda criança começa. Toda criança desenha e sempre tive muito estímulo dos meus pais. Minha família sempre entendeu a arte como um item necessário, não só na formação do indíviduo, mas também na compreensão de mundo, como forma de se expressar. Enquanto as crianças começam a parar de desenhar lá pelos 12 anos, eu continuei. Sempre me interessei muito em acompanhar artistas, na minha casa sempre teve muito jornal, sempre tive acesso a autores como Angeli, Glauco e Laerte, sempre gostei muito de charge, de quadrinhos. Na época em que eu era criança e adolescente, a banca de jornal ainda era uma referência. Não tinha grana para comprar tudo o que queria, mas conseguia ficar folheando revistas, folheando fascículos e tive acesso ao trabalho de vários autores. 

Depois, quando eu resolvi fazer uma universidade, fiquei em dúvida entre um curso de engenharia da computação e artes plásticas, e eu acabei optando pelas artes plásticas. Fiz artes visuais na Unesp de Bauru, tive daí contato com outros artistas, do Renascimento, do Barroco, Impressionismo, Expressionismo e por aí vai. Mas uma coisa que sempre me encanava era que eu não me via nas coisas, quando criança não me via nos livros infantis, depois adulto não via pessoas negras em destaque nos jornais. Na universidade tive muito acesso à arte europeia e pouca coisa da arte brasileira, de pintores negros, de artistas africanos, e isso sempre me fazia pensar “cadê os negros?”, porque venho de uma família que tem muitos artistas, e ficava me perguntando “cadê essas pessoas na sociedade?” Então isso foi uma coisa que sempre me incomodou muito. 

Na universidade, continuei desenhando bastante. E na cidade em que eu estava, em Bauru, apareceu uma vaga de ilustrador e cartunista num jornal local. Daí me inscrevi, fui selecionado e comecei a trabalhar como cartunista. Foi meu primeiro emprego. Foi isso que abriu as portas nesse mundo do cartum, da charge. Foi aí que eu também me apaixonei pelo jornalismo, porque no jornal eu frequentava as reuniões de pauta, comecei a entender como as informações eram produzidas, quais os cuidados necessários para essa informação ser trabalhada, as etapas de construção de uma matéria, e como a imagem conversa com essa matéria. Minha faculdade de jornalismo foi trabalhando no jornal – não sou formado em jornalismo. Daí não saí mais de redações – de Bauru fui para Campinas, trabalhei nos jornais de lá – Correio Popular e Diário do Povo -, e em 2004 fui para São Paulo, onde trabalhei em vários veículos, como as revistas da editora Abril, e também em jornais da capital – Folha e Estadão. Eu trabalhava no meu estúdio e publicava nesses veículos. 

Em 2014, aquela inquietude de não me ver representado nos espaços que eu tinha desde criança foi crescendo, comecei a discutir mais temas relacionados a questões estruturais, como o racismo estrutural e as violências de gênero e de classe. Comecei a perceber que dentro desses meios em que eu trabalhava essa discussão era muito difícil, porque é só a gente entender como funciona a concentração de mídia no país para entender que esses problemas estruturais do Brasil – que precisam ser discutidos, e se não são discutidos não se encontra a solução, e sem essa solução o país não se moderniza -, não são de interesse desses veículos. Então nesse ano, 2014, eu entrei na Ponte (https://ponte.org/ ), que estava se formando e é um veículo nativo digital. Eu queria muito trabalhar num veículo que tivesse essa pegada e esse compromisso antirracista de verdade, que estivesse a fim mesmo de debater os problemas estruturais do país.

Como você vê as desigualdades brasileiras?

O problema das desigualdades brasileiras ele acompanha o país desde sua fundação. A gente vive num país que foi fundado para ser colônia. E até hoje o Brasil funciona como uma colônia. Somos um país que produz matéria prima e exporta a custo baixo, para comprar os manufaturados a preços exorbitantes. É essa posição que a gente tem dentro do capitalismo hoje no mundo. Somos a periferia do capitalismo. E para o Brasil continuar assim, as desigualdades precisam ser mantidas. Por isso a gente ainda tem aqui cidadãos de primeira e segunda classes, definidos por raça, essa violência total de gênero e também de classes sociais, que inclui raça e gênero. 

Nosso papel é debater essas questões e achar soluções junto com movimentos sociais e outros grupos, mas estes precisam ter equidade de vozes, para que a gente consiga passar a limpo esse país e caminhar na direção da solução desses problemas. O Estado brasileiro tem uma sofisticação em reprimir os movimentos sociais e em defesa da igualdade, mas os movimentos estão conseguindo escapar das armadilhas desse Estado, a gente vê o movimento negro, o indígena, o de mulheres, se articulando de uma forma muito interessante. Somos um país violento, machista, racista, homofóbico, mas hoje essa articulação dos movimentos é um contraponto interessante. A desigualdade está aí, mas as pessoas têm se movimentado bastante para que essa desigualdade – de gênero, de raça, de classe – seja combatida e reduzida. 

Fale um pouco sobre o seu desenho no calendário Oxfam Brasil 2021.

Eu sempre gosto de ilustrar os problemas estruturais de nosso país, para que as pessoas entendam que esses problemas existem e precisam ser discutidos. Mais do que o humor, meu trabalho tem uma pegada mais de mostrar o quão ridícula é a nossa situação, que  gente tem problemas gigantes para discutir e há quem ainda tente colocar esses problemas para debaixo do tapete, da maneira mais tosca possível. Mas os problemas estão aparentes, estão nas ruas, afetam a vida das pessoas, não dá para esconder mais. Nunca teve na verdade. Quando dizem que “o racismo no Brasil é velado”, não é velado nada, ele é gritante. Você sabe muito bem que as pessoas que são presas elas têm raça e território definidos. São pessoas que estão à margem dessa sociedade. Quem sofre violência e não tem acesso ao mercado de trabalho nem espaços institucionalizados são os negros, os indígenas. A mulher ganha menos do que o homem, e se for preta ou trans, vai ganhar menos ainda.  O meu desenho é a tentativa de mostrar que esse Brasil precisa ser refundado. As discussões precisam ser mais objetivas e as pessoas precisam entender que o Brasil é um país diverso – em indivíduos, em grupos mas precisa ser no discurso e na prática também. Em direitos. Porque sem isso, não temos democracia

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