Quase metade dos trabalhadores rurais no Brasil cumpre jornadas acima de 40 horas semanais

29/04/26

Um novo estudo lançado pela Oxfam Brasil coloca no centro do debate público uma realidade persistente e pouco visível: a extensão da jornada de trabalho no campo brasileiro. Intitulado Entre o tempo de trabalho e o tempo de vida, o levantamento revela que 45% dos trabalhadores rurais assalariados cumprem mais de 40 horas semanais, sendo que 23% ultrapassam o limite legal de 44 horas.

Produzido a partir de dados da PNAD Contínua, RAIS/CAGED e entrevistas com trabalhadores e dirigentes sindicais, o estudo traça um retrato detalhado das condições de trabalho no meio rural e aponta para um cenário de sobrecarga estrutural, agravado por informalidade, longos deslocamentos e ausência de controle efetivo da jornada.

Embora os números já indiquem excesso, a pesquisa mostra que o tempo real de trabalho vai além do registrado. Em muitas regiões, trabalhadores chegam a passar até quatro horas por dia em deslocamento até as lavouras, período que não é contabilizado como jornada e tampouco remunerado. A exclusão dessas horas, reforçada pela reforma trabalhista de 2017, contribui para ampliar ainda mais a distância entre o tempo formal de trabalho e o tempo efetivamente dedicado à atividade.

Na prática, o estudo revela uma rotina marcada por escalas intensas e, muitas vezes, sem descanso semanal. A escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de folga — aparece como a mais frequente entre os assalariados rurais, especialmente nos períodos de maior demanda, como plantio e colheita. Relatos coletados indicam jornadas contínuas, em que trabalhadores chegam a atuar dias seguidos sem pausa, evidenciando o descompasso entre legislação e realidade.

A informalidade é outro elemento central desse quadro. Segundo o levantamento, ao menos 26% dos trabalhadores assalariados rurais não têm carteira assinada, o que os deixa fora da proteção legal e mais expostos a jornadas irregulares e extensas. Em alguns casos, vínculos precários e intermediados criam cadeias de trabalho nas quais parte dos trabalhadores permanece invisível à fiscalização, submetida a condições ainda mais severas.

Sobrecarga é ainda maior entre mulheres

A pesquisa também chama atenção para o impacto desigual da jornada sobre mulheres. No meio rural, elas acumulam o trabalho remunerado com tarefas domésticas e de cuidado, o que resulta em jornadas duplas ou até triplas. Dados citados no estudo mostram que mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, quase o dobro do tempo dos homens, com impacto ainda maior entre mulheres negras.

Redução da jornada pode beneficiar até 2,8 milhões de trabalhadores rurais

Além das longas horas, trabalhadores enfrentam condições adversas, como exposição ao sol intenso e a agrotóxicos, muitas vezes sem proteção adequada. Esse conjunto de fatores, segundo o estudo, está associado a maior incidência de adoecimentos ocupacionais, acidentes de trabalho e prejuízos à saúde física e mental.

Diante desse cenário, o relatório insere a discussão sobre a redução da jornada no centro das políticas públicas voltadas ao campo. A análise indica que uma eventual redução para 40 horas semanais poderia beneficiar cerca de 1,6 milhão de trabalhadores rurais. Já uma jornada de 36 horas alcançaria aproximadamente 2,8 milhões de pessoas, o equivalente a 77% dos assalariados rurais do país.

“Os dados mostram que a sobrecarga no campo não é exceção, mas regra. Quase metade dos trabalhadores rurais assalariados já cumpre mais de 40 horas semanais — e, quando consideramos deslocamentos e informalidade, o tempo real de trabalho é ainda maior. Reduzir a jornada não é apenas uma pauta urbana; quando trazemos a realidade do campo, é uma questão de dignidade, saúde e justiça social”, afirma Viviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam Brasil.

Apesar do impacto expressivo sobre os trabalhadores, o custo para o setor seria relativamente limitado. Estimativas citadas apontam que a mudança representaria um aumento de pouco mais de 3% no custo total da atividade, ao mesmo tempo em que poderia gerar ganhos em produtividade, redução de faltas e menor rotatividade — efeitos já observados em experiências pontuais no próprio país.

O estudo dialoga com um movimento mais amplo, nacional e internacional, que discute novos modelos de organização do trabalho, incluindo semanas reduzidas e escalas mais equilibradas. No Brasil, propostas legislativas que tratam da redução da jornada voltaram à pauta, impulsionadas também por mobilizações recentes contra escalas consideradas nocivas.

Ao evidenciar a realidade do campo, o relatório amplia o alcance desse debate. Mais do que discutir horas formais de trabalho, o estudo propõe uma reflexão sobre a relação entre tempo, trabalho e dignidade. Em um setor historicamente marcado por desigualdades, a questão que se impõe é até que ponto a produção agrícola pode continuar sendo sustentada por jornadas extensas e por um tempo de vida cada vez mais comprimido.

Compartilhar