A jornada de trabalho no campo vai muito além das horas dedicadas à produção: ela envolve deslocamentos exaustivos, exposição a condições adversas e, para as mulheres, a sobrecarga invisível do trabalho doméstico e de cuidado.
O sumário executivo “Entre o Tempo de Trabalho e o Tempo de Vida” revela que 45% dos trabalhadores rurais assalariados cumprem mais de 40 horas semanais — e 23% ultrapassam o limite legal de 44 horas. Com dados inéditos da PNAD Contínua (2025) e entrevistas realizadas nas regiões Sul e Nordeste, a análise da Oxfam Brasil em parceria com o Social Lab expõe as escalas nocivas, a informalidade e o apagamento das diferenças de gênero e raça que marcam o cotidiano de cerca de 3,6 milhões de pessoas.
Destaques do estudo:
- Escala predominante: trabalhadores e dirigentes sindicais apontam a escala 6×1 como a de maior incidência no campo.
- Informalidade: 28% dos assalariados rurais não têm carteira assinada. Entre esses, jornadas de 12 a 18 horas diárias são comuns em períodos de safra.
- Mulheres negras: dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado, contra 11,7 horas dos homens. A sobrecarga é ainda maior para mulheres pretas e pardas.
- Deslocamento: trabalhadores gastam até 4 horas por dia no trajeto para o trabalho, tempo não remunerado desde a Reforma Trabalhista de 2017.
- Penosidade: trabalho ao ar livre, exposição a sol intenso e agrotóxicos, muitas vezes sem equipamentos de proteção.
Impacto da redução da jornada
Com base nos 3,6 milhões de assalariados rurais ocupados em 2025
Redução para 40 horas
Beneficia 1,6 milhão de trabalhadores rurais, o equivalente a 45% do total.
Redução para 36 horas
Beneficia 2,8 milhões de trabalhadores, alcançando 77% da categoria.
Impacto econômico
Segundo o IPEA (2026), reduzir para 40 horas elevaria os custos totais do setor agropecuário em apenas 3,14%.