Encerrar as bets também é enfrentar desigualdades 

25/09/26

A proposta da Medida Provisória que encerra as bets no Brasil representa um freio de emergência contra um mecanismo que vinha drenando sistematicamente a renda das famílias mais pobres e aprofundando as desigualdades.  

O relatório “Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, da Oxfam Brasil, já havia soado o alarme: as plataformas de apostas online operam como uma poderosa engrenagem de transferência reversa de renda, convertendo o desespero financeiro de quem está no limite da sobrevivência em lucro para grandes corporações. 

A renda que deveria ir para o prato, vai para a aposta 

As bets tiram de quem tem menos e concentram em quem já tem muito. O relatório da Oxfam Brasil aponta que essas plataformas drenam de forma predatória a renda das famílias das periferias, transformando o orçamento de sobrevivência e consumo básico em lucro financeiro privado e em endividamento em massa. 

E quando o dinheiro acaba e as dívidas aparecem, muitas recorrem a empréstimos, cartão de crédito rotativo ou agiotagem, entrando num ciclo de endividamento que se torna impossível de romper. A precarização do mercado de trabalho e a falta de mobilidade social empurram milhões para a informalidade e para a ausência de proteção social. Sem perspectiva de ascensão, resta a promessa ilusória de que a sorte será a saída. 

A dor como modelo de negócio 

A indústria de apostas construiu uma máquina de influência política: entre 2023 e 2024, representantes do setor se reuniram ao menos 78 vezes com ministros e secretários do governo federal. No Congresso, tentativas de aumentar a tributação foram barradas, e uma CPI para investigar os danos das bets terminou sem que ninguém fosse responsabilizado. O resultado é uma regulação fraca, que permite que as perdas sejam socializadas enquanto os lucros permanecem privados e bilionários. 

Além do custo financeiro, a saúde mental da população mais vulnerável é devastada. O vício em jogos é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como transtorno psiquiátrico. No Brasil, estima-se que mais da metade (52,8%) das pessoas com problema de jogo ou em risco tenha renda de até um salário-mínimo. São justamente aquelas que menos podem perder. O Ministério da Saúde alerta para o crescimento de casos de ansiedade, depressão e ideação suicida associados às apostas. 

Famílias e desigualdade no centro do debate 

É preciso reconhecer que as bets prosperaram porque encontraram um terreno fértil: a precarização do trabalho, a falta de mobilidade social e a ausência de políticas públicas que garantam dignidade a quem está na base da pirâmide. Como aponta a Oxfam Brasil, não se trata de um problema individual de falta de educação financeira, mas de um sistema que mercantiliza o desespero. 

A medida provisória assinada hoje precisa vir acompanhada de um conjunto de ações que coloquem as famílias e a redução da desigualdade no centro da discussão: 

  • Fortalecimento da proteção social: ampliar e qualificar programas de transferência de renda, garantindo que o dinheiro chegue e permaneça onde é mais necessário. 
  • Regulação rigorosa e tributação progressiva: se o setor não for totalmente extinto, deve ser tratado como atividade de risco, com impostos que compensem seu custo social e restrições severas de publicidade, especialmente para jovens e vulneráveis. 
  • Combate à captura da democracia: transparência no lobby, regras claras de conflito de interesses e responsabilização de empresas que exploram a vulnerabilidade da população. 

O relatório “Poder, Privilégio e a Captura da Democracia” conclui que a desigualdade brasileira não é acidente, mas um projeto sustentado por quem captura o Estado e dita as regras. As bets são a expressão mais recente e talvez mais cruel desse projeto: uma indústria que lucra com a miséria, que transforma a esperança em vício e o pouco que o povo tem em lucro para poucos. 

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