Concentração de riqueza amplia desigualdade de poder e ameaça democracia no Brasil, aponta Oxfam

19/08/26

São Paulo, 19 de agosto de 2026 – A desigualdade brasileira vai muito além das diferenças de renda. A elevada concentração de patrimônio e riqueza no topo da pirâmide se traduz em maior capacidade de influenciar eleições, políticas públicas, regulações e a destinação dos recursos do Estado. É o que revela o novo relatório da Oxfam Brasil, Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia.

O estudo analisa as conexões entre desigualdade econômica e poder político e sustenta que a democracia brasileira convive com profundas assimetrias de representação e influência. Grupos com maior poder econômico dispõem de mais recursos para financiar campanhas, estruturar ações de lobby, acessar autoridades e influenciar o debate e as decisões públicas.

Ao mesmo tempo, mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente vulnerabilizados permanecem desproporcionalmente afastados dos espaços de poder econômico e político.

“Enfrentar as desigualdades no Brasil exige olhar não apenas para quanto cada pessoa ganha, mas também para quem acumula patrimônio, quem controla recursos e quem possui condições muito superiores para influenciar as decisões do Estado. A democracia perde força quando o poder econômico se transforma em poder político desproporcional”, afirma Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil.

Renda melhora na base, mas concentração aumenta no topo

O relatório reconhece avanços nos indicadores sociais brasileiros, como a elevação do rendimento médio, a redução da pobreza e os efeitos positivos das políticas de proteção social e transferência de renda. Esses resultados, porém, convivem com forte concentração no topo.

Dados fiscais mostram que a participação do 1% mais rico na renda nacional passou de 20,4% para 24,3% entre 2017 e 2023. Cerca de 85% desse aumento ficou com o 0,1% mais rico, e metade foi apropriada pelo 0,01% situado no extremo superior da distribuição.

A desigualdade é ainda maior quando se observa o patrimônio. Entre os declarantes de Imposto de Renda em 2023, os 10% mais ricos concentravam 64,2% da riqueza declarada, enquanto apenas o 1% do topo detinha 37,3%.

Enquanto a maior parte da população depende principalmente de salários, os grupos mais ricos recebem parcela maior de seus rendimentos por meio de lucros, dividendos, aplicações financeiras e ganhos de capital. A alíquota efetiva do Imposto de Renda cai para 4,6% entre o 0,01% mais rico, revelando os limites da progressividade tributária.

A desigualdade possui ainda forte dimensão de gênero. As mulheres representam 44,1% dos declarantes de Imposto de Renda, mas recebem apenas 38% da renda declarada e concentram somente 29,5% dos bens líquidos. O patrimônio médio declarado por mulheres é de R$ 246 mil, pouco mais da metade dos R$ 463,6 mil registrados entre os homens.

Poder econômico como filtro eleitoral

A concentração econômica encontra correspondência na representação política. Embora as mulheres constituíssem 52,65% do eleitorado brasileiro em 2022, responderam por apenas 17% das pessoas eleitas naquele ano. Somente duas mulheres foram eleitas governadoras.

O patrimônio dos eleitos também revela grande distanciamento em relação à realidade econômica da maioria da população. De acordo com os dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral, quase 45% das pessoas eleitas em 2022 possuíam patrimônio superior a R$ 1 milhão.

Para a Oxfam Brasil, recursos econômicos aumentam as possibilidades de uma candidatura adquirir visibilidade, estruturar equipes e alcançar maior competitividade. Mesmo após o fim das doações empresariais diretas e a ampliação do financiamento público, permanecem desigualdades na distribuição dos recursos partidários e eleitorais, afetando especialmente candidaturas de grupos historicamente sub-representados.

Lobby, plataformas digitais e orçamento ampliam assimetrias

O relatório identifica outros mecanismos pelos quais riqueza e poder corporativo podem se converter em influência política, como lobby pouco transparente, circulação de profissionais entre empresas e Estado (a chamada “porta giratória”), atuação sobre órgãos reguladores, influência sobre o debate público e controle de plataformas digitais.

O crescimento das apostas online é apresentado como exemplo da capacidade de influência de novos grupos econômicos. Entre 2023 e 2024, empresas e representantes ligados ao setor participaram de pelo menos 78 reuniões oficiais com ministros e secretários do governo federal, segundo os dados reunidos pelo estudo.

Outra frente de preocupação é o orçamento. As emendas parlamentares passaram de R$ 10,2 bilhões em 2014 para R$ 49,17 bilhões em 2024, ampliando a importância de mecanismos de planejamento, transparência, rastreabilidade e controle social sobre esses recursos.

Oxfam propõe medidas para democratizar poder e decisões

Diante do diagnóstico, a Oxfam Brasil defende que o combate às desigualdades esteja associado ao fortalecimento da democracia. Entre as principais recomendações estão:

Justiça fiscal: maior progressividade na tributação das altas rendas e patrimônios; tributação de grandes fortunas, lucros e dividendos e grandes heranças; revisão de benefícios fiscais regressivos; e maior transparência sobre renda e patrimônio.

Regulação do lobby: mecanismos para identificar quem influencia decisões públicas, em nome de quais interesses e com quais recursos.

Democratização do financiamento político: maior fiscalização dos fundos eleitoral e partidário e melhores condições materiais para candidaturas de mulheres negras, indígenas, populações periféricas e outros grupos sub-representados.

Transparência no orçamento: maior rastreabilidade das emendas parlamentares, incluindo as “emendas Pix”, vinculação dos recursos a critérios de planejamento e adoção de indicadores de raça, gênero e território.

Para a Oxfam Brasil, eleições regulares e direitos políticos formais são indispensáveis, mas não suficientes para uma democracia substantiva. “Reduzir as desigualdades exige também equilibrar a capacidade dos diferentes grupos da sociedade de participar, influenciar decisões e disputar a destinação dos recursos públicos”, diz Viviana Santiago.

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