"A gente via o agronegócio crescendo nas costas daqueles que eles massacravam"

Entrevista com liderança de comunidade de posseiros em Pernambuco - é a 2a da série sobre mulheres e direito à terra
qua, 09/05/2018 - 19:28

Edina Maria da Silva é uma jovem liderança da comunidade de posseiros do Engenho Barra do Dia, pertecente à falida usina Vitória, de cana-de-açúcar, localizada em Palmares, Pernambuco. A usina foi flagrada em 2008 com trabalhadores em condições análogas à escravidão, e faliu. As famílias que moram no local há cerca de 80 anos hoje aguardam a formalização da desapropriação da área para reforma agrária, e com isso terem seus direitos garantidos.

Edina mora há sete anos na comunidade e lembra com tristeza da época que sua mãe, também agricultora, trabalhava para uma outra grande usina de açúcar da região, a Catende, onde era constantemente humilhada e desrespeitada. "Minha mãe foi muito humilhada com o agronegócio, por ela ser mulher", diz Edina. "Não garantiam os direitos dela. E a gente via o agronegócio crescendo nas costas daqueles que eles estavam massacrando."

Hoje, Edina tem sua própria roça e a vida melhorou bastante, diz. "Quando a gente começou a trabalhar para a gente mesmo, depender da gente mesmo, na área de agricultura familiar, mudou bastante." Mas ainda há desafios importantes a serem enfrentados. Latifundiários vivem querem tomar as terras dos pequenos agricultores, e atravessadores que compram as mercadorias da comunidade estão sempre oferecendo muito menos do que valem os produtos. "Só quem sabe o valor da mercadoria é quem planta, quem cria. Quando eles vão comprar, querem humilhar, colocam o preço lá embaixo."

Esta é a segunda entrevista da série sobre mulheres, terra e desigualdade que estamos produzindo - a primeira foi com a líder terena Ana Sueli Firmino, do Mato Grosso do Sul. A ideia surgiu após oficina que realizamos em São Paulo com 15 mulheres de comunidades rurais, movimentos do campo, agriculturas, quilombolas, lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, de diversas regiões do país para debater a relação de mulheres com o direito à terra, desigualdade no campo os impactos do agronegócio em suas vidas.

Em 2106 lançamos o relatório Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural e nele mostramos diversos dados que revelam a grande concentração de terras no país, como o fato de as maiores propriedades terem sido as que mais receberam incentivos e foram melhoradas, com acesso a créditos, pesquisa e assistência técnica com o objetivo de produzir para exportação ou atender à indústria agroindustrial.

Leia a entrevista com Edina Maria da Silva:

Como você vê a questão de desigualdade de terra no Brasil?

É uma desigualdade muito grande. Só temos garantia de terra no papel. Mas na realidade, não temos. Principalmente mulheres, a juventude... é como se nós não tivéssemos direitos.

Na questão do acesso à terra, quais são os impactos do agronegócio?

Falando por experiência própria, machuca, dói, humilha. A minha mãe foi muito humilhada com o agronegócio, por ela ser mulher, sempre tem essa questão de gênero. Ela trabalhava para a usina Catende. Eles diziam que ali não era o lugar dela. Quando não conseguia cumprir a cota dela, era tachada como 'mole'. E ela adoecia, chegava em casa doente, não podia ir trabalhar no dia seguinte - e eles não aceitavam os atestados (médicos) dela. Não garantiam os direitos dela. A gente via eles crescendo, o agronegócio crescendo nas costas daqueles que eles estavam massacrando, humilhando. Então, o agronegócio é algo que machuca, humilha as pessoas.

Agora você trabalha na sua própria roça. Como funciona?

Hoje a gente tem nossa própria plantação, e não é mais humilhado - não tanto como antes, porque ainda tem os grandes latifundiários que querem tomar as nossas terras, nós vivemos em constante processo de luta. E tem também a questão dos atravessadores. Só quem sabe o valor da mercadoria é quem planta, porque tem o trabalho de plantar. Mas eles (os atravessadores) chegam e colocam o preço das mercadorias dos agricultores lá embaixo. As mulheres têm suas plantações de hortaliças, criam suas galinhas, suas cabras, e quando eles vão comprar, querem humilhar. Elas sabem o preço que valem as mercadorias, e eles dizem que não, e colocam o preço lá embaixo. Mas hoje vivemos melhor do que antes, muito melhor. Quando a gente começou a trabalhar para a gente mesmo, depender da gente mesmo, na área de agricultura familiar, mudou bastante. Mas precisa mudar muito mais ainda.

Leia também:

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Terra e desigualdades: mulheres, direito à terra e os impactos do agronegócio

Relatório Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdade no Brasil rural

 

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