Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, estudo da Oxfam Brasil mostra que, mantido o ritmo atual, paridade de gênero entre prefeitos eleitos levaria 173 anos
Em meio ao debate sobre a composição dos espaços de poder nas eleições gerais de 2026, um levantamento da Oxfam Brasil revela a persistência de barreiras à participação de mulheres, especialmente negras, na política brasileira. Embora o estudo examine as eleições municipais, seus resultados oferecem elementos para discutir representação, financiamento eleitoral e desigualdade no acesso a cargos eletivos.
Nas eleições municipais de 2024, cerca de 87% das cidades brasileiras não tiveram nenhuma mulher negra concorrendo à prefeitura. As mulheres representam 51,1% da população, mas conquistaram apenas 13,2% das prefeituras; as mulheres negras, que correspondem a 28,1% dos brasileiros, ficaram com somente 4,4% desses cargos.
Os dados integram a segunda edição do estudo Desigualdades de Raça e Gênero na Política Brasileira, da Oxfam Brasil, baseado nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) relativos aos pleitos municipais de 2016, 2020 e 2024. A pesquisa examina candidaturas, resultados eleitorais, financiamento e a presença de pessoas negras, indígenas, quilombolas e LGBTQIA+ nos espaços de decisão.
Entre 2016 e 2024, a proporção de prefeitas eleitas passou de 11,5% para apenas 13,2%. Se o ritmo de crescimento observado permanecer inalterado, o Brasil levaria cerca de 173 anos para alcançar a paridade de gênero entre pessoas eleitas para comandar as prefeituras. Em 2024, apenas duas capitais elegeram mulheres para o cargo.
“As eleições de 2026 recolocam em evidência uma pergunta essencial: quem consegue chegar aos espaços de decisão no Brasil? Os dados municipais mostram que o direito de se candidatar não significa, por si só, ter as mesmas condições de disputar e vencer uma eleição. Para as mulheres negras, os obstáculos são ainda maiores”, afirma Viviana Santiago, diretora da Oxfam Brasil.
Nas câmaras municipais, houve avanço, ainda que insuficiente. Em 2024, as mulheres conquistaram 18,3% das cadeiras de vereador, contra 13,5% em 2016. Entre as pessoas eleitas, 4.347 eram mulheres negras, aproximadamente 7,5% do total de integrantes dos legislativos municipais. O estudo aponta que regras de cotas e de distribuição de recursos contribuíram para ampliar a diversidade, sem eliminar as desigualdades.
O pleito de 2024 também trouxe novos dados sobre grupos pouco representados. Pela primeira vez, foi possível registrar a autodeclaração quilombola: houve 3.384 candidaturas deferidas, mas apenas duas mulheres quilombolas foram eleitas prefeitas e 71 vereadoras. O levantamento registra ainda 225 pessoas LGBTQIA+ eleitas, sendo 222 para as câmaras e três para prefeituras.
O financiamento eleitoral é outro ponto central da análise. Segundo a Oxfam Brasil, a existência de percentuais mínimos de repasse não garante, isoladamente, recursos suficientes nem condições semelhantes de competitividade entre diferentes grupos. A pesquisa também examina desigualdades patrimoniais, a distribuição interna das verbas partidárias e a violência política de gênero e raça.
“Não basta ampliar a presença de mulheres e pessoas negras nas listas de candidaturas. É preciso assegurar transparência na distribuição de recursos, condições reais de competitividade e proteção contra a violência política”, diz Viviana Santiago.