O mundo não está apenas diante de um ponto de virada. O que vemos hoje é uma verdadeira emergência de desigualdade, na qual pobreza e exclusão não são acidentes do destino, mas resultado direto de escolhas políticas e econômicas. Ao analisar relatórios recentes da Oxfam, torna-se evidente que existe um problema estrutural profundo: a base da pirâmide social e econômica, tanto global quanto brasileira, é ocupada majoritariamente por mulheres.
São elas que suportam de forma mais intensa o peso das crises que marcam o nosso tempo, especialmente as crises educacional, alimentar e climática. Quando essas crises se sobrepõem, criam um ciclo persistente de vulnerabilidade que afeta principalmente mulheres negras, periféricas e rurais, que enfrentam barreiras históricas para acessar renda, educação, terra, moradia digna e participação política.
Os problemas que sustentam essa desigualdade são múltiplos e interligados. Em nível global, a exclusão começa no acesso ao conhecimento básico. O relatório Resistindo ao Domínio dos Ricos: Defendendo a Liberdade Contra o Poder dos Bilionários revela um dado alarmante: em 2024 havia 754 milhões de adultos analfabetos no mundo, e as mulheres representavam 63% desse total.
A falta de acesso à educação está diretamente conectada a outro fenômeno estrutural conhecido como pobreza de tempo. Em todo o mundo, mulheres dedicam cerca de 12,5 bilhões de horas por dia ao trabalho de cuidado não remunerado, como cuidar de crianças, idosos e tarefas domésticas. Esse trabalho invisível limita o acesso à educação, ao mercado de trabalho e à participação política, perpetuando desigualdades ao longo das gerações. No Brasil, essa desigualdade aparece de forma concreta no cotidiano das famílias, especialmente na alimentação.
O estudo Encruzilhada Climática: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras mostra que 32% dos domicílios chefiados por mulheres vivem em situação de insegurança alimentar, enquanto entre os lares chefiados por homens esse número é de 23%. Entre todos os domicílios brasileiros onde moradores enfrentam a fome, 59,4% têm uma mulher como responsável pela família. Esses números evidenciam que a fome também possui um recorte de gênero e está profundamente ligada às desigualdades econômicas e sociais.

A desigualdade brasileira também é marcada por uma forte dimensão racial. Os dados de renda média mostram uma hierarquia clara no país. Homens brancos recebem em média R$ 2.598 por mês, enquanto mulheres brancas recebem R$ 2.439. Entre homens pretos ou pardos, a renda média cai para R$ 1.397, e entre mulheres pretas ou pardas chega ao menor patamar, com R$ 1.281. Essa estrutura revela que mulheres negras ocupam o ponto mais vulnerável da hierarquia econômica brasileira. A crise climática aprofunda ainda mais essas desigualdades.
No Brasil, cerca de 48% dos domicílios localizados em áreas de risco climático são chefiados por mulheres, e entre essas mulheres 62% são negras. Muitas dessas famílias vivem em encostas ou margens de rios não por escolha, mas como resultado de décadas de ausência de políticas públicas de moradia, planejamento urbano e infraestrutura. Esse fenômeno é frequentemente descrito como racismo ambiental, quando populações negras e periféricas são as mais expostas aos impactos da degradação ambiental e dos desastres climáticos.
No campo, o cenário de exclusão também se repete. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura indicam que mulheres nos sistemas agroalimentares ganham em média 20% menos que os homens e enfrentam barreiras significativas para acessar terra, crédito e assistência técnica. Mesmo com recordes de exportação do agronegócio brasileiro, trabalhadores rurais continuam entre os grupos mais pobres do país. Além disso, apenas uma pequena parcela dos territórios quilombolas e indígenas possui titulação formal, apesar de as mulheres dessas comunidades desempenharem papel central na proteção da biodiversidade e na produção de alimentos.
Sem enfrentar esses problemas estruturais, não haverá superação das desigualdades. A crise climática, a desigualdade econômica e a exclusão social não são agendas separadas, mas dimensões interligadas de um mesmo desafio. Ignorar o racismo ambiental e as desigualdades de gênero e raça significa limitar a capacidade de resposta diante das crises contemporâneas.
A superação desse cenário exige uma mudança profunda nas prioridades políticas e econômicas, colocando mulheres, especialmente mulheres negras, periféricas e rurais, no centro das decisões públicas e dos investimentos. Somente assim será possível transformar um sistema marcado pela concentração de poder e riqueza em uma democracia capaz de garantir dignidade, proteção e acesso a direitos para toda a população.