A arte como ferramenta de reflexão e transformação social está no centro do trabalho da artista cearense Alexia Ferreira, de 26 anos. Moradora de Fortaleza e criada no bairro periférico Barroso 2, Alexia é estudante de Filosofia e encontrou na produção artística um caminho para abordar temas que nem sempre conseguia discutir dentro da academia. Essa trajetória também orienta as 12 obras que criou para o calendário Oxfam Brasil 2026.
Sua relação com a arte começou no final de 2019 e ganhou força durante a pandemia, quando passou a produzir colagens digitais a partir das questões políticas e sociais daquele período. Entre os temas presentes em seus primeiros trabalhos estavam as racialidades e as experiências de seu próprio corpo como mulher negra. Com o tempo, sua pesquisa se voltou também para as infâncias negras e para a forma como o racismo vivido durante a infância influencia a construção das identidades.
Nesta entrevista, ela fala sobre sua trajetória, suas influências artísticas, sua visão sobre as desigualdades no Brasil e o processo criativo por trás das obras que compõem o calendário.
Você pode contar um pouco sobre sua história?
Me chamo Alexia Ferreira, tenho 26 anos. Eu moro em Fortaleza, cresci é, numa periferia de Fortaleza, um bairro periférico chamado Barroso 2. A minha vida ela é guiada através da filosofia, pois eu sou estudante de filosofia, e por meio da filosofia que eu entendi que a práxis era um meio necessário para que se fosse possível mudar as coisas socialmente.
Eu adentrei no meio da arte puxando um pouco desse caminho. Um pouco até político de entender as influências sociais, mas também entender os contextos filosóficos do mundo. Eu adentrei a conhecer Fanon, a conhecer Angela Davis, a conhecer Ailton Krenak. E no meio disso tudo, conhecendo esses autores, eu adentrei a arte, e é dentro da arte que eu vi a possibilidade de falar sobre assuntos que eu não me sentia tão confortável de falar dentro da academia.
A minha trajetória com a arte começa em 2019, antes da pandemia, e esse também foi um momento em que eu estava muito reclusa, porque estávamos em casa e eu comecei a produzir bastante. Eu produzi muitas colagens digitais e falava sobre o cenário político que estava acontecendo na época de pandemia, durante o governo Bolsonaro. Falava sobre as racialidades do meu corpo e para mim sempre foi importante falar sobre isso dentro do meu trabalho.
Mas em algum momento eu fui vendo outras coisas sobre a minha vida, até que eu chego num trabalho sobre a infância, sobre entender a potência, a potencialização que a infância tem no corpo de pessoas negras. Então eu parei para estudar como o racismo na infância me influenciou a ser quem eu sou. Então hoje esse é o meu pilar dentro da arte, dialogando com questões relacionadas às artes contemporâneas.
Quais são as suas influências como artista?
As minhas influências vem das artes e dafilosofia, porque esses são pilares da minha vida. Tenho como referência Frantz Fanon, Ailton Krenak, Leda Maria Martins, Nêgo Bispo, Angela Davis. Essas são grandes referências literárias, filosóficas e de luta política.
Mas dentro das artes, tenho a Rosana Paulino, Dalton Paula como referência. A criação do Sertão Negro, é uma grande influência no que a gente pode fazer enquanto prática ação, e sabendo que essas ações são o que movem os conflitos, que fazem os conflitos chegarem a uma mediação.
Enfim, eu fui criada em meios de lutas políticas. Minha mãe é uma pessoa que desde muito nova lutou pelo movimento de terras, então, para mim, é importante também continuar essa perpetuação e eu faço um pouco disso dentro da arte. É um caminho que eu gosto de seguir, mas como falei para você também, né, trabalho sobre as infâncias negras, então tentei expor um pouco disso nas obras que foram feitas.
Pode falar um pouco sobre suas artes que está no calendário Oxfam Brasil 2026?
A ideia dos calendários era partir da resistência. Para mim, parti um pouco para a etimologia da palavra, um pouco sobre combate, um pouco sobre manter uma posição e, diante dos conflitos no mundo, porque atualmente a gente está no período de eleição com um cenário em que a gente temos o Presidente Lula de um lado e o filho do ex-presidente Bolsonaro num lugar de disputa por vida, por uma dignidade humana, e ai esse tema chega.
Então, para mim, uma das coisas importantes e necessárias era que eu pensasse um pouco sobre a minha própria trajetória e a relação com a resistência. Como falei, minha mãe é uma pessoa que veio do movimento de lutas por terra e, para mim, era importante também deixar um pouco nítido isso.
Nos meus trabalhos artísticos, eu costumo trabalhar com casas, e casa fala muito sobre o direito à moradia. Casas no Brasil pode significar muitas coisas, às vezes as pessoas têm lares físicos mas não são acolhidas, não são bem quistas, então, ter um pouco dessa dualidade do lugar físico, do direito e dos locais que elas vivem, mas que ao mesmo tempo não são os melhores lugares para existir, principalmente se a gente pensa na população LGBTQ no Brasil.
Então, é uma mescla disso. Inicialmente, quando eu penso em resistência, vem desse lugar da busca por um lar. A interseccionalidade é uma coisa que eu trabalho nas obras, então é notável que tem a presença de crianças, pessoas negras, mulheres, crianças indígenas, pessoas asiáticas…todos esses sujeitos foram incluídos nesse contexto porque a ideia era representar essa pluralidade de corpos e de existências.
Basicamente, tinha uma ideia fixa, que eram as casas, o acesso à brincadeira, o acesso a ter felicidade, a alegria, que são coisas importantes quando a gente pensa em resistência. Temos grandes referências que falam sobre resistência e a alegria, como o Heitor dos Prazeres, que tem obras narrando isso, e para mim é sempre muito importante também que as coisas sejam muito coloridas, porque a felicidade também vem em forma de protesto.