Estudo “Da Marcha ao Bem Viver” mostra avanços e desafios das mulheres negras na última década

16/07/26

O Cine Glauber Rocha, em Salvador, foi palco na noite de terça-feira (14/07) do lançamento da pesquisa “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil”. Realizado por Oxfam Brasil, Gênero e Número e Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, o estudo reúne análises inéditas sobre políticas públicas e diferentes bases de dados para avaliar os direitos das mulheres negras entre 2015 e 2025.

O evento marcou a disponibilização do material completo, que já pode ser acessado na íntegra aqui.

Dez anos depois da primeira Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver (2015), a pesquisa revela que, embora o Brasil tenha registrado avanços na garantia de direitos, mulheres negras continuam enfrentando desigualdades estruturais em áreas como representação política, trabalho, educação, justiça climática, saúde e segurança pública.

O grupo é o maior do país, com mais de 60 milhões de pessoas – 28% da população. As marchas foram as duas maiores mobilizações nacionais do movimento de mulheres negras no Brasil, ocorridas com dez anos de intervalo. A primeira aconteceu em 2015 e reuniu entre 70 mil e mais de 100 mil mulheres em Brasília. A segunda edição ocorreu em novembro de 2025, reunindo mais de 300 mil pessoas, com delegações vindas de mais de 40 países.

“O principal achado do estudo é que os avanços conquistados na última década não foram suficientes para romper as desigualdades estruturais que atravessam a vida das mulheres negras. Quando analisamos participação política, trabalho, educação, saúde, justiça ambiental e segurança pública em conjunto, fica evidente que essas dimensões se reforçam mutuamente. É justamente essa leitura integrada que o estudo busca oferecer”, explicou Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, durante a mesa de abertura.

Avanços, estagnações e retrocessos: o que os dados apontam

Direito à educação

Na educação, a cara das universidades públicas mudou drasticamente no corpo discente: mulheres negras saltaram de 15% para 22% entre 2010 e 2022, passando de 1,9 milhão para 5,7 milhões de estudantes. A proporção de mulheres negras com ensino superior completo cresceu 194% no mesmo período.

O avanço, no entanto, tem limite conhecido: a pós-graduação, sobretudo em seus corpos docentes, com departamentos e programas inteiramente brancos em não poucos casos. Na educação básica, outro limite: a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira, segue como um avanço formal que não se traduziu em prática cotidiana – 53% das secretarias municipais de educação realizam ações de forma desestruturada e esporádica, quase sempre confinadas a projetos pontuais em novembro.

Embora a escolarização das mulheres tenha aumentado nos últimos 10 anos, elas seguem associadas a carreiras específicas: foram de 32% para 42% do corpo discente em Formação de Professores, de 29% para 40% em Enfermagem e de 25% para 31% em Letras. Já as áreas de maior prestígio social e retorno financeiro, como Medicina, Direito e Engenharia, continuam majoritariamente brancas.

“Certos avanços são inegáveis, mas nenhum deles chegou a desarticular a ideia de que o homem branco é a norma em algumas posições. Isso se nota em vários dos temas que levantamos. No caso do acesso a certas carreiras, mesmo com resultados positivos na comparação com a última década, é possível perceber a força da branquitude na reserva desses mercados”, observou Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude.

Direito à vida, à justiça e à segurança pública

No campo do direito à vida, à justiça e à segurança pública, o retrato é de aprofundamento da violência. Os registros de violência doméstica cresceram 145% entre 2014 e 2024. Entre mulheres negras, o salto foi de 185%, contra 92% entre brancas. As mulheres negras são 61% das vítimas – e eram 51% na década anterior.

Em 2024, o país teve recorde de feminicídios (1.492 casos), 63,6% deles contra mulheres negras. No ambiente de trabalho, a violência também se aprofundou: em 2014, mulheres brancas eram maioria entre as vítimas de violência no trabalho (53%); em 2024, essa posição já era ocupada por mulheres negras (54%).

Direito ao trabalho e emprego

A proporção de mulheres negras que afirmaram que não procuraram emprego por conta de afazeres domésticos cresceu 22% entre 2015 e 2024. No mesmo período, houve queda de 9% entre brancas.

Caiu a participação de mulheres negras mais jovens no trabalho doméstico remunerado: entre 2014 e 2024, a faixa de 25 a 40 anos recuou de 39% para 27% da categoria. Ao mesmo tempo, na faixa de 41 a 59 anos e de 60 anos ou mais, houve crescimento da participação das mulheres negras no trabalho doméstico remunerado, de 45% para 55% e de 6% para 11%, respectivamente.

Ainda que a proporção de mulheres negras entre as trabalhadoras domésticas tenha oscilado para baixo na década (de 18% para 16%), ela segue muito superior à de mulheres brancas (9%). Em 2024, 92% dos trabalhadores domésticos no Brasil eram mulheres, sendo 63% delas negras.

A posição de empregador expressa a hierarquia racial e de gênero do mercado de trabalho. Em 2015, quase metade dos empregadores eram homens brancos (48%), proporção que permanece elevada (43%) em 2024. As mulheres negras ampliaram sua participação de 8% para 10%. Ou seja, a estrutura do topo ocupacional segue amplamente concentrada entre homens, especialmente brancos.

Direitos sexuais e reprodutivos

Nesses 10 anos, houve queda de 21% na mortalidade materna em todo o país, de 1.679 casos para 1.316. No entanto, as mulheres negras, que representavam 64% dos óbitos maternos em 2015, seguem representando exatamente os mesmos 64% em 2024.

Em 2014, mulheres negras concentravam proporções mais altas de aborto espontâneo (59%) e de abortos não especificados (13%) em comparação às mulheres brancas (45% e 15%, respectivamente). Em 2024, essa desigualdade permanece com o aborto espontâneo, com 47% dos casos entre mulheres negras e 38% entre brancas.

Embora a proporção de aborto legal e por razões médicas tenha aumentado entre 2014 e 2024, mulheres brancas continuam tendo maior acesso (de 1% para 3%) que mulheres negras (de 0% para 2%).

Recomendações

Além de um diagnóstico, a pesquisa reúne um conjunto de recomendações dirigidas ao poder público, à sociedade civil e a organismos internacionais. Entre as principais estão:

  • Ampliação das cotas para mulheres negras em concursos públicos
  • Reconhecimento do cuidado como trabalho estruturante da economia
  • Obrigatoriedade do quesito raça/cor nos registros de segurança pública e de justiça
  • Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra
  • Adoção do Orçamento Sensível a Gênero e Raça (OSGR) no planejamento de políticas públicas

“Grande parte das reivindicações formuladas há uma década permanece necessária, revelando tanto a potência política daquele documento quanto a lentidão das instituições brasileiras em responder às demandas das mulheres negras”, ressaltou Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil.

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