Os países ricos voltaram a inflar o “valor real” do financiamento climático que fornecem a países de baixa e média renda, superestimando-o em cerca de US$ 100 bilhões em 2024, segundo nova análise da Oxfam. Esse valor supera os US$ 88 bilhões pelos quais o financiamento climático foi superestimado em 2022.
Os governos relataram ter mobilizado quase US$ 137 bilhões em financiamento climático em 2024 para ajudar países do Sul Global a reduzir emissões e lidar com os impactos cada vez mais graves do colapso climático. Embora US$ 106 bilhões do total reportado tenham sido fornecidos como financiamento público, US$ 69 bilhões (65%) foram concedidos na forma de empréstimos. Muitos desses empréstimos são oferecidos em condições de mercado, exigindo pouco ou nenhum esforço financeiro dos países ricos, ao mesmo tempo em que aumentam a carga da dívida dos países do Sul Global.
A Oxfam estima que o “valor real” do financiamento climático fornecido pelos países ricos em 2024 esteja entre US$ 33 bilhões e US$ 45 bilhões, o equivalente a no máximo um terço do montante reportado. Apenas US$ 15 bilhões a US$ 18 bilhões foram destinados à adaptação.
As conclusões surgem poucas semanas após as negociações climáticas de Bonn, nas quais os governos dos países ricos se recusaram a fortalecer o compromisso assumido na COP30 de triplicar o financiamento para adaptação até 2035. A Oxfam estima que mesmo a triplicação desse financiamento atenderia apenas a um terço das necessidades de adaptação dos países mais pobres.
A Oxfam calculou o “valor real” do financiamento climático estimando o equivalente em doações dos empréstimos relacionados ao clima e de outros instrumentos não reembolsáveis, em vez de considerar seu valor nominal, para medir o esforço financeiro efetivo dos países ricos. A organização leva em conta a diferença entre empréstimos concedidos a taxas de mercado e aqueles oferecidos em condições preferenciais, além de considerar as alegações excessivamente generosas sobre a relevância climática desses recursos.
“Mais uma vez, os países mais ricos e mais poluentes estão inflando o valor do financiamento climático que fornecem, criando a ilusão de solidariedade enquanto entregam muito menos do que afirmam”, disse Mariana Paoli, líder de políticas climáticas da Oxfam. “Em vez de ajudar os países mais pobres a enfrentar uma crise para a qual pouco contribuíram, os países ricos os empurram ainda mais para o endividamento por meio de empréstimos, muitos deles oferecidos em termos comerciais lucrativos. É uma ironia cruel: os que têm maior responsabilidade pagam menos — e ainda lucram — enquanto os que têm menor responsabilidade pagam mais.”
“O que é necessário é financiamento climático público baseado em doações, na escala que a crise climática exige, não truques contábeis, empréstimos que agravam a dívida e promessas vazias. As doações são recursos vitais que permitem aos adaptar-se às mudanças climáticas, reduzir emissões, proteger vidas e responder às perdas e danos devastadores. Na COP31, os países ricos precisam aumentar drasticamente o financiamento climático baseado em doações e finalmente cumprir os compromissos assumidos.”
Notas aos editores
- Baixe a nota metodológica da Oxfam. Os cálculos se baseiam em pesquisa original da INKA Consult e de Steve Cutts, utilizando os conjuntos de dados mais recentes da OCDE sobre financiamento ao desenvolvimento relacionado ao clima para 2023 e 2024. Os valores foram arredondados para o múltiplo de US$ 0,5 bilhão mais próximo.
- Segundo a OCDE, os países ricos afirmam ter mobilizado US$ 136,7 bilhões em financiamento climático para os países do Sul Global em 2024.
- Em 2022, os países ricos superestimaram o “valor real” de seu financiamento climático em até US$ 88 bilhões.
- De acordo com o UNEP Adaptation Gap Report 2025, as necessidades estimadas de financiamento para adaptação dos países de baixa e média renda variam entre US$ 310 bilhões e US$ 365 bilhões por ano até 2035.
- Nas negociações climáticas de Bonn no mês passado, os governos dos países ricos se recusaram a fortalecer o compromisso assumido seis meses antes na COP30, em Belém, Brasil, de triplicar o financiamento para adaptação, o que, segundo a Oxfam, ainda representaria apenas um terço do necessário para atender às necessidades dos países mais pobres.